histórias de vestibular: EMOCIONAL FOI O CORTE DE LAÍS

O Caderno de Educação vai começar hoje uma série de matérias com relatos de estudantes contando tudo o que acontece antes, durante e depois do “temido” e “sonhado” vestibular.
Com "Histórias de Vestibular", você vai entender o que pensam, o que sofrem e por quais situações passam principalmente os estudantes, mas também outras pessoas que convivem com esses aspirantes a “bixo”.
Na primeira matéria da série, uma história de superação, cheia de nuances, mas que mostra que vestibular não define ninguém. Essa é só mais uma etapa da vida, que deve ser superada com estudo, disciplina, comprometimento e também com muito bom humor.
A seguir, a primeira história.
Laís Martins, 20 anos, sempre foi uma ótima aluna, especialmente em química, matéria por qual sempre foi apaixonada. No primeiro ano do ensino médio encontrou uma mentora, a professora Daniela, o que só reforçou a sua paixão e seu objetivo de se tornar professora de química, o que até praticou um pouco ao fazer a monitoria no colégio em que estudava, o Sion, em São Paulo. “Sempre que eu dava aulas, eu sentia uma felicidade imensurável em estar ajudando a galera que precisava de reforço”, recorda.
O problema de Lais começou quando estava no terceiro ano do ensino médio, prestes a prestar vestibular, quando a expectativa sobre os seus resultados cresceram demais. Ela conta: “Eu ouvia. Você vai passar em primeiro!, Você é um gênio, vai gabaritar a Fuvest!, “Você vai passar em todas, vai poder escolher a faculdade que quiser!”.
O problema, admite Laís, é que ao invés de ser um “filtro” e pegar só a parte boa das mensagens, acabou se tornando uma “esponja”, e absorveu o que a ajudaria, mas também o que trouxe prejuízos. No primeiro vestibular prestado em 2010, o da Unesp, Laís desabou, literalmente, na hora da prova.
Na cabeça da estudante o único pensamento era de que não podia decepcionar todas as pessoas que confiavam e que estavam torcendo por ela. Pensamento errado, na hora errada. “Eu fiquei travada. Chorei por uma hora e meia e só depois comecei a fazer a prova. Não cheguei a fazer nem metade da prova, porque além de nervosa eu ficava revisando pra ver se não tinha errado nada”, relata, dizendo que na mesma hora percebeu que não conseguiria passar.
Uma semana depois, Laís foi fazer o vestibular da Unicamp. Um pouco mais controlada, mas ainda muito nervosa, Laís não conseguiu concluir a totalidade da prova no tempo estipulado.
Em seguida veio o esperado vestibular da Fuvest, um dos mais respeitados do Brasil. Apesar de estar bem preparada em termos de conteúdo, já que fez colégio e cursinho ao mesmo tempo, ainda não estava segura, mesmo depois de palestras feitas por professores com o objetivo de acalmar os vestibulandos. “Na verdade, acho que tudo aquilo me deixou ainda mais nervosa para a prova”, avalia. Consequência: “Desabei de novo. Fiquei chorando nas duas primeiras horas de prova e depois fiz só as questões de física, química e biologia”, recorda.
Um ponto importante citado por Laís é da sensação que sentiu na hora da prova de matemática, matéria que adora e que sempre teve facilidade. “Eu estava com muita dificuldade para fazer aquelas questões. Na hora do desespero, eu achei que eu não soubesse mais nada de matemática e larguei a prova, chutei todas as questões que faltavam e fui embora. No dia seguinte, quando saíram os comentários sobre as provas, os professores disseram que matemática tinha sido uma das provas mais difíceis de todos os anos da Fuvest... No final das contas, eu havia me desesperado por nada”. Um alerta importante de quem passou pelo vestibular.
EM TESTE - Sem sucesso nas primeiras tentativas, Laís fez cursinho novamente e decidiu prestar o vestibular de meio de ano para Engenharia Ambiental ,na Unesp. Mas esse seria apenas um treino, pois seu objetivo era voltar no final do ano para a almejada Química. “A diferença desse vestibular é que eu não falei para ninguém e fui fazer a prova bem tranquila. Quando saíram as listas, eu havia passado”, relembra. Apesar de não ser sua primeira opção, Laís foi para o campus da Unesp em Sorocaba
No final do ano, como estava combinado, voltou a prestar vestibular para Química Embora estivesse bem mais tranquila, sentiu a pressão porque todos sabiam dos seus objetivos. Passou na primeira fase da Unesp, mas com tanta felicidade, diz que acabou “subindo no salto”.
Na segunda fase, a sensação de peso nas costas pela expectativa dos outros voltou. “Novamente fiquei paralisada na hora da prova, chorei quase a prova inteira e quando faltavam 10 minutos para acabar o tempo eu só havia feito as questões escritas de Química. O caderno de Humanas ficou intacto, nem abri”, relembra.
DEPRESSÃO - Os resultados negativos trouxeram a depressão, o desânimo de ter que cursar mais um ano de cursinho e a incerteza de que se algum dia iria passar no vestivular. “Eu ficava o dia inteiro dormindo, não queria sair pra ver ninguém, não queria falar com ninguém. Quando eu saía do meu quarto, era para ver televisão na sala”, relata.
A mentira, o afastamento e os puzzles foram a redenção para Laís. Ela decidiu dizer que tinha desistido e que nunca mais faria vestibular, apenas aulas de inglês. Também saiu do Facebook, decidiu se conectar consigo mesma e descobriu o que chama de “meu melhor remédio: puzzles”.
Os quebra-cabeças ela conheceu em Sorocaba com uma veterana e seu namorado. Aprendeu a montar o tradicional cubo mágico 3x3x3 e depois usou outros puzzles como uma verdadeira terapia contra a depressão. O seu analista, Victor, usava os puzzles também durante as sessões e fazia comparações entre a solução do cubo e a sua vida. “Era fantástico”.
E a cada novo puzzle diferente que conseguia solucionar, Laís adquiria mais confiança na sua capacidade. Apesar de ter facilidade com exatas, ela diz que o cubo ajudou na lógica para a solução dos exercícios propostos e na sua memorização, que aumentou muito, principalmente depois de começar a treinar de olhos vendados.
SUCESSO - “No final do ano, não deu outra, fui fazer as provas bem tranquila e em todas elas eu fazia questão de resolver o cubo mágico de olho fechado antes de começar, aquilo funcionou como uma meditação pra mim”, conta.
Os resultados obtidos por Laís no final 2012: Aprovada em 4º lugar na Unesp, em 8º no Mackenzie e em 8º na Usp. “Na Unicamp não consegui, mas acho que o mais importante é conseguir entrar na faculdade, independente da colocação. Acredito que todo esforço é válido e essas provas, pra falar a verdade, não medem capacidade de ninguém”, excelente recado de quem viveu diferentes experiências.
É fato que muitas pessoas extremamente capazes não conseguem passar em exames como o vestibular. “Na hora da prova, o aluno pode ter uma crise de pânico ou ansiedade, como era o meu caso, e não conseguir fazer a prova. Conheço pessoas brilhantes e esforçadas que não conseguiram passar por questões emocionais também”, completa.
Laís conta que, além dos puzzles e do seu analista, teve o apoio de vários professores e de amigos, em especial João Gabriel, Giulianna e Luiza. Sobre os pais, diz que foram “fundamentais”, por sempre apoiarem as suas escolhas, especialmente a de ser professora, e ensinar que o mais importante é fazer o que gosta.
O último recado de Laís é: “Não importa o quanto demore pra você ter sucesso, mas quando você faz aquilo que gosta, você tem garra pra batalhar pelo seu sonho e dar o melhor de si mesmo sempre!”.
O Caderno de Educação agradece à Laís por compartilhar a sua história, com sinceridade e emoção, com todos os nossos leitores.
Quer participar? Mande a sua história para contato@cadernodeeducacao.com.br