histórias de vestibular - MICHAEL É ESFORÇO E OPORTUNIDADE

É muito fácil avaliar um aluno somente pelo nome da escola onde estuda ou pela universidade em que ingressa. Mas muito mais interessante é conhecer a história que o levou até aquele ponto. No caso do universitário Michael Cerqueira, 19 anos, poderíamos dizer que foi uma verdadeira saga, cheia de reviravoltas.
Filho de pais que não completaram a educação formal, mas que sempre deram muita importância à educação, Michael foi aluno da Escola Estadual Miguel Munhoz Filho do Jardim São Luís, em São Paulo (SP), até a 8ª série. As professoras de História e de Matemática reconheceram que ele era um aluno esforçado e o indicaram para concorrer a bolsa de estudo através do Ismart, uma Ong que encaminha bons alunos da escola pública para serem bolsistas em boas escolas privadas.
Foi assim que Michael chegou ao Colégio Lourenço Castanho, depois de passar por quatro fases de seleção, envolvendo prova, entrevista individual e familiar, além de dinâmica de grupo. “Tinha bastante vontade de mudar de escola devido às limitações que o Miguel Munhoz oferecia, apesar dos excelentes professores”, diz Michael, que chegou a passar também para a ETEC Guaracy, uma excelente oportunidade de estudo também, mas preferiu usufruir da bolsa de estudos que tinha conquistado.
A decisão mudou totalmente a vida de Michael. A nova escola ficava a uma hora e meia de sua casa, o ritmo de estudo era muito mais forte, exigia muito mais dos alunos e ainda teve a adaptação social, já que ele foi o primeiro aluno a ingressar na escola através da parceria com a Ong. “O pessoal foi muito solícito e deu todo o suporte necessário. Mas era uma situação completamente nova. Uma classe social completamente distinta da minha, com referências, origens e cultura distintas da minha”, recorda, lembrando que apesar das diferenças, fez grandes amigos e mantém os laços de amizade até hoje. “No final as diferenças enriqueceram o colégio”, pontuou.
Michael define o seu ensino médio assim: “Com um foco claro e com uma enorme vontade de estudar, passei meu ensino médio buscando extrair ao máximo das aulas e das oportunidades da escola. O que eu podia participar de aulas extras, atividades extracurriculares e cursos externos eu estava inscrito. A ideia era construir uma formação sólida que me preparasse não só para o vestibular, mas também para a vida como cidadão”.
Se decidir o curso é um grande desafio para a maioria dos jovens, esse definitivamente não era o caso de Michael. Queria Economia. Isso porque seu sonho é seguir uma carreira no Estado e nos sites de ministérios e secretarias de governo sempre notou a presença maciça de economistas. “Desde cedo tinha a vontade de retribuir a sociedade todas as oportunidades que tive durante a minha vida e via em carreiras do Estado uma maneira eficaz de realizar isso”, explica.
Com a proximidade do vestibular, Michael se preocupou em estar preparado, pois queria passar na primeira oportunidade. “Não passava pela minha cabeça a possibilidade de fazer um ano de cursinho. Era naquele ano que entraria na faculdade”. Para isso entrou num curso extra para o vestibular que a escola oferecia e montou um grupo de estudos com mais quatro amigos que continuavam na escola pública.
Antes mesmo de ingressar na faculdade, Michael já havia iniciado o seu trabalho social. “No grupo de estudos com meus antigos amigos da escola pública pude passar um pouco do meu conhecimento e aprender com eles. O sonho de todos nós era ingressar na USP, mas tínhamos consciência do desafio e nos inscrevemos para diferentes universidades – todas de excelência – para que nosso sonho de estar em uma faculdade se realizasse”, lembra.
Michael já sabia o que queria cursar, mas participou de um projeto chamado “coaching”, quando foi possível visitar os campi e conhecer as grades dos cursos. “Tamanha era minha vontade em estudar Economia na USP que já tinha quase que decorado as grades e já sabia boa parte das eletivas que gostaria de pegar”, conta.
Mas com o surgimento de um novo curso na Fundação Getúlio Vargas, de Administração Pública, novas dúvidas passaram a surgir na cabeça de Michael. “Eu era terminantemente contra estudar em uma faculdade privada e meu sonho de ser um uspiano já estava formado”, conta, lembrando que foi convencido a se inscrever na FGV, mas era asua última opção, depois de USP, Unicamp, Unesp e UFRJ.
HORA DAS PROVAS – Michael conta que sempre teve uma postura bastante serena e confiante nas provas, pois sabia que tinha estudado e estava disposto a dar o melhor na hora dos exames. “Todo dia de vestibular era uma rotina. Almoço leve em casa e um lanche generoso para a prova. Costumava levar uma barra de chocolate e dividir o número de fileiras pelo número de questões. A cada grupo de questões que eu resolvia eu tinha a recompensa do chocolate. Isso permitia ter energia durante a prova e momentos de felicidade”, revela.
Mas justo no dia da prova da FGV Michael acordou atrasado e quase desistiu de fazer a prova, já que não era sua prioridade. Só foi mesmo devido à insistência da sua mãe. “Na pressa para sair de casa acabei levando um panetone para a prova. Por não ser uma das minhas maiores preferências, fiz a prova de maneira extremamente calma, não estava nem um pouco nervoso e acabei rapidamente”, conta, dizendo que só ficou um pouco mais nervoso em outros exames.
ZERO NO ENEM - Com os principais desafios superados e estudando para a segunda fase da Fuvest e Unicamp, Michael teve um choque uma semana antes do Natal, quando saiu o resultado do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio): sua redação apareceu com nota zerada. “Fiquei atordoado. Sabia que tinha estudado com afinco e que sem o Enem não conseguiria uma vaga na UFRJ e ainda prejudicaria o cálculo da nota da Unesp e da Unicamp”, recorda.
Ele conta: “Tentei ligar no Inep (autarquia do Ministério da Educação responsável pelo Enem), mandar e-mail, contatei minha escola, entreguei meu rascunho de redação para um professor corrigir. Tentei de todas as maneiras resolver aquele assunto. Não era possível que minha redação estivesse errada”. Na alegação para a nota constava a justificativa “uso de impropérios ou desenhos com intenção de anular”.
A direção da escola Lourenço Castanho comprou a briga de Michael e questionou judicialmente o resultado da prova. Com o rascunho da redação e apoio de todos, foi provado que Michael sempre foi um bom aluno e que não havia motivos para a redação tivesse sido zerada. Essa foi a primeira decisão judicial que reviu uma nota de redação do Enem, passando de 0 para 880 – a nota máxima é 1000.
Com sua nota no Enem revisada, Michael conquistou uma vaga na UFRJ. Mas a maior surpresa do dia foi o resultado da FGV. Michael passou em 3º lugar e ganhou uma bolsa de estudos integral. Também conquistou uma vaga na Unesp. Mas a cabeça de Michael ainda estava na segunda fase das provas da USP e Unicamp. “Enquanto isso fui sendo convencido a não ir para o Rio de Janeiro, na UFRJ, nem para Araraquara, na Unesp”, conta.
Com a confirmação de que havia passado na USP, ele conta que passou por uma das decisões mais difíceis de sua vida. “Conversei com diversos pais de amigos, com professores da FGV e alunos da USP, e cada vez mais a dúvida aumentava”, diz.
O relato de Michael deixa transparecer que a sua visão social foi fundamental para a sua escolha. Ele diz que não queria tirar a vaga de ninguém que estivesse concorrendo na pública e ao mesmo tempo admite que o curso de Administração Pública da FGV realmente o conquistou. “Eu queria trabalhar no Estado e não era em economia que eu teria uma formação sólida nesse sentido”, afirma.
E conclui: “Depois de todas essas idas e vindas, desafios e contratempos me encontro hoje no 4º semestre de administração pública da FGV. Com professores excelentes, desafios diários e projetos envolventes vejo que a minha decisão foi a mais acertada”. Sobre a carreira? Ainda não sabe exatamente como vai atuar e diz que ainda vai ter tempo para descobrir, mas garante que o Estado ainda o encanta muito.
Mas a sua história vai além. Os amigos de escola pública que estudaram com ele também ingressaram em universidades, pública e privadas. O final de feliz de várias histórias. “Certamente nosso esforço foi recompensado”, finaliza.