O CASO PC FARIAS

06/05/2013 16:14

 

               

               Quatro policiais começam a ser julgados hoje em Maceió pelo assassinato do empresário Paulo César Farias em 23 de junho de 1996.

Por muitos anos o caso PC Farias dominou o noticiário nacional. Ele ganhou visibilidade em todo o Brasil como tesoureiro da campanha do presidente Fernando Collor de Mello em 1989, apesar de ter tido a mesma função na campanha presidencial de Paulo Maluf, em 1985, quando conheceu Collor.

                Denunciado o que logo se denominou de “Esquema PC”, pelo irmão do então presidente Collor, Pedro Collor, em entrevista à revista Veja, Paulo César Farias foi considerado “persona non grata” ao país.

                O tal “Esquema PC”, em resumo, era um tráfico de influência dentro do governo federal que gerava muitos benefícios aos seus ocupantes, além de ter siso um esquema de lavagem de dinheiro durante a campanha eleitoral de Collor. PC Farias chegou a ser preso e, quando foi assassinado, estava em liberdade condicional.

                A MORTE

                Depois da renúncia e do impeachment do ex-presidente Fernando Collor, hoje senador, foi decretado o fim da chamada “República de Alagoas”. O nome foi dado porque muitos ocupantes de cargos em nível federal vinham de Alagoas, como próprio ex-presidente. PC nunca ocupou cargo público no governo Collor, o que intrigava ainda mais sua constante presença e seus contatos sempre em nome de presidente. Collor mesmo admitiu “acredito que muitas vezes PC tenha falado em meu nome”, mas jamais confirmou que isso fosse autorizado, muito pelo contrário, sempre afirmou que jamais autorizara PC a negociar benefícios (tráfico de influência) em troca de favores do governo. Segundo ele, PC agia sem o seu consentimento.

                Antes da prisão, PC fugiu do país e foi encontrado algum tempo depois em Londres pelo jornalista Roberto Cabrini, então na Rede Globo.  Foi um dos maiores furos jornalísticos da imprensa brasileira. Até o governo inglês autorizar a extradição, PC fugiu novamente, sendo capturado pela Polícia Federal em Bancoq, na Tailândia.

                No Brasil foi condenado à prisão, onde estava quando a sua esposa Elma Farias morreu de um ataque cardíaco em julho de 1994. Em 28 de dezembro de 1995, PC Farias conseguiu a liberdade provisória, que gozava quando morreu.

                Naquela noite de 23 de junho de 1996, PC recebeu dois irmãos e a sua então namorada, Suzana Marcolino, em sua casa de praia, em Guaxuma, litoral norte de Maceió (AL). Por volta de uma da manhã os irmãos foram embora deixando a sós Suzana e PC Farias. Foi quando aconteceu o assassinato cujo julgamento está acontecendo em Maceió.

                Os corpos de PC e Suzana foram encontrados pelos funcionários da casa, que tinham ordem para acordar o empresário às 11 horas. Ao arrombarem a porta, já que o casal não respondia, viram na cama Suzana e PC já mortos. O primeiro da família a chegar foi o irmão, então deputado federal, Augusto Farias, que depois chamou a polícia.

                Imediatamente a tese para as mortes foi a de crime passional. Suzana e PC discutiram e Suzana acabou atirando no empresário e depois se suicidou.

                Logo essa versão foi contestada. Iniciou-se um verdadeiro debate nacional entre o legista da Unicamp, Fortunato Badan Palhares (laudo oficial para a polícia de Alagoas) e o chefe do departamento de Medicina Legal da Universidade Federal de Alagoas, George Sanguinetti, que apresentava muitas falhas no laudo de Palhares e apontava que PC havia sido morto em outro local da casa e Suzana não havia se suicidado. Para ele, a cena do crime havia sido montada e crescia a hipótese de “queima de arquivo”.

                Em 26 de junho de 1996 a Folha de S. Paulo publicou que a arma do crime foi vendida para a polícia de Alagoas. Quatro seguranças de PC eram policiais. Isso causou mais dúvidas ainda sobre o caso e a justiça começou a trabalhar com outra hipótese, a de duplo homicídio, justamente a que está em julgamento.

                O então deputado federal Augusto Farias chegou a ter sua prisão decretada como autor intelectual do crime, mas foi absolvido por falta de provas. O fato de ser deputado federal e ter foro privilegiado dificultou a ação do Ministério Público.

                Em 1999, nova contradição no laudo oficial. Essa causou tremenda reviravolta e foi decisiva para que os quatro policiais fossem a júri popular. A Folha de S. Paulo publicou fotos que mostravam que Suzana Marcolino era, pelo menos, sete centímetros mais baixa que PC. Os laudos oficiais apontavam que a namorada era mais alta que o empresário. Todos foram unânimes em dizer que o laudo estava comprometido, inclusive o legista Ricardo Molina, que participava da equipe de Badan Palhares.

                Dessa forma cresceu a tese de duplo homicídio, o que a família Farias ainda contesta. Já a família de Suzana Marcolino jamais sequer admitiu o assassinato e muito menos o suicídio. Segundo relatos, a jovem estava muito feliz e recebia muitos presentes de PC, inclusive um carro zero km e uma Boutique em Maceió, que seria seu sonho.

                Durante os dias que sucederam o assassinato de PC muitas notícias sacudiram o país. Uma delas era o fato de Elma Farias, a mulher de PC, falecida dois anos antes, ter um dia pedido ao marido que contasse tudo o que sabia. Ela sabia que ele era um “arquivo vivo”. Dizia que se Paulo César falasse não ficaria um político no Congresso. PC jamais se dispôs a falar.

                Outro fato intrigante. Duarante a noite, Suzana fez três ligações, por volta das 5 horas, para o celular do dentista Fernando Colleoni, de Santo André, com quem jantara dois dias antes em São Paulo, onde esteve para fazer compras para a sua boutique. Ela deixou recados na secretária eletrônica dizendo que o amava e que iria encontra-lo nem que fosse em outro lugar.

                Mais um fato enigmático foi a queima do colchão onde o casal foi encontrado morto. Como estava muito ensanguentado, conforme publicado pela imprensa na época, os funcionários da casa de praia de Guaxuma resolveram queimá-lo. Depois afirmaram que tiveram a autorização do delegado Cícero Torres.

                Essas notícias sacudiam o país diariamente. As dúvidas pairavam no ar com a sucessão de laudos, fatos e versões.

                Chegamos em 2013 e agora vamos assistir a esse julgamento. Todos os laudos, as notícias, os fatos e versões serão levados ao conhecimento dos jurados. Seriam os seguranças, policiais, os responsáveis pelo assassinato de PC e Suzana? Teriam agido a mando de alguém? De quem? Teria sido realmente crime passional?

                Mais uma vez vamos ver a história acontecer.